domingo, 15 de agosto de 2010

ALFARRÁBIO MUSICAL: GUILHERME ARANTES

Guilherme Arantes: seu mundo e tudo mais


Por: Grazi Ella Feliz Ares

Quando fui convidada para escrever uma matéria sobre Guilherme Arantes para o Alfarrábio fiquei empolgada... Quem, quando criança, nunca cantou “Pegar carona nessa cauda de cometa, ver a Via Láctea, estrada tão bonita”? Quem na vida, diante de uma desilusão, nunca entoou “E eu que tinha tudo hoje estou mudo, estou mudado, à meia-noite, à meia luz, pensando, daria tudo por um modo de esquecer...”? E quem nunca assoviou em alto e bom som o início de “Descer a Serra (Sorocabana)”? Ou ainda quem, diante de uma relação desgastada, nunca admitiu: “Adeus também foi feito pra se dizer: bye bye, so long, farewell”. Afinal, todo brasileiro que se preze sabe cantar pelo menos o refrão de alguma canção desse grande compositor e intérprete, um dos mais importantes e conhecidos ícones da música brasileira.
Guilherme Lima Arantes nasceu no dia 28 de julho de 1953, no bairro da Bela Vista, em São Paulo, e foi criado em Santo Amaro. Morava numa casa de arquitetura moderna para a época. Filho de Gelson Lima Arantes, médico-cirurgião formado pela USP, e Dona Hebe Planet Martuscelli, bibliotecária e tradutora, Guilherme tem duas irmãs, Ana Cristina Arantes, um ano mais velha, doutora em Educação Física, e Heloisa Arantes, nove anos mais nova, médica. Ele gosta de relembrar a infância:

Eu passava as férias em Santos, Praia Grande, Campos do Jordão, mas principalmente em Araraquara [vem daí o carinho do cantor por nossa cidade], com minha querida avó Iracema e meu avô Luiz, advogado do IAPI. Foi uma infância feliz, com muito sorvete, cinema, soltando pipa e jogando bola, meio perna de pau, mas era bom no carrinho de rolimã.

Aos seis anos Guilherme já tocava cavaquinho e, mais tarde, bandolim. Depois aprendeu a tocar piano, sozinho. Sempre apaixonado por música, lembra com carinho dos Festivais de MPB da TV Record:


Dos anos 60, lembro-me dos festivais e sua sensação maravilhosa do novo. Meu tio Cyro Lima Arantes trabalhava na TV Record, junto ao Marcos Lázaro, e sempre pintavam convites para os Finos da Bossa, Jovem Guarda, etc. Fui um rapaz de sorte, vi com meus próprios olhos o surgimento de toda uma geração de ouro da MPB, todos novinhos, universitários tímidos no palco, sem saber bem o que fazer com a fama - que lindo - quanta diferença se a gente comparar com os ídolos de hoje, empresários milionários com sua eficiência específica, previsível, e muitas vezes corruptora, com a ascensão do "jabá". [...] Enfim, cada tempo é de um jeito - e naquela época havia muita utopia no ar - as pessoas estavam juntas pensando diferente - hoje cada um está na sua, mas todo mundo pensa igual. Lembro-me bem do Day-After do festival onde cantaram Caetano ("Alegria Alegria", uma revelação total), Chico ("Roda Viva"), Vandré ("Disparada"), "O Cantador" com Elis, Sergio Ricardo e sua atitude maravilhosa de inconformismo, Gil e Os Mutantes com "Domingo no Parque", etc.

Compositor e letrista desde os 15 anos, iniciou seu trabalho musical em 1974 com o grupo de rock progressivo “Moto Perpétuo”:

Já no segundo ano de Arquitetura, na FAU, conheci o Claudio Lucci, brilhante violonista, e com ele fui procurar um velho amigo, o Diógenes, o melhor baterista que vi tocar em toda minha vida. A gente formou então o Moto Perpétuo, uma banda híbrida de progressivo (a moda na época) com a MPB, principalmente mineira, influência do Clube da Esquina.


Mas foi em 1976 que Guilherme teve sua carreira consolidada quando a balada “Meu mundo e nada mais” tornou-se canção-tema da novela Anjo Mau. Como dizia uma reportagem da época: “Guilherme deve tudo a um Anjo Mau”. A música foi apenas a primeira dos muitos sucessos de Guilherme no horário nobre:

Não que "Meu mundo e Nada mais" tenha estourado de cara. Demorou pra tocar na rádio. Eu me lembro que no começo só tocava de madrugada, na antiga Rádio Excelsior, mas era uma emoção me ouvir no mesmo velho radinho de pilha debaixo do travesseiro (onde tantos jogos do Santos de Pelé foram acompanhados na adolescência, com inesquecível narração de Fiori Gigliotti). "Meu mundo e Nada Mais", composta em 69, viria a tocar 530 vezes na novela, que eu contei, assistindo com a minha avó Iracema, de Araraquara, que na época morava no Lar Santanna. Era um massacre, virei um sucesso instantâneo. [...] Era engraçado ser reconhecido na rua: "Olha aquele cara do Anjo Mau!". Eu não sabia o que era isso, vinha de um meio universitário diametralmente oposto ao popular. Uma vez, fui cantar no Show de Calouros do Silvio Santos, onde o Zé Fernandes me deu 4,5 (o máximo era 5), e o Brasil inteiro comentou aquilo... Ele deu 4,5 porque a letra dizia "só sobraram restos" e isso fazia cacófato com "soçobraram restos"... Grande descoberta!! Aí, eu perguntei se ele não conhecia esse recurso da poesia modernista... Silvio interrompeu dizendo: "Não, não, neste quadro o cantor não pode falar...". [...] No final do programa, havia um batalhão de fãs querendo me agarrar, eu saí correndo pela Praça Marechal Deodoro, as fãs gritando atrás, foi a coisa mais ridícula da minha parte...

Muito sincero em suas declarações, sempre lutou contra a hegemonia das gravadoras: “Em matéria de música, não trabalho por encomenda. Não consigo fazer letras mentirosas. Só aquilo que sinto...”. Considerado por muitos o Elton John tupiniquim, Guilherme chegou a comentar em uma entrevista à revista Hitpop, em junho de 1976: “Isso tudo é cascata... a verdade é que quando comecei a escutar qualquer coisa do Elton John, a maioria das minhas músicas já estava pronta, inclusive ‘Meu mundo e nada mais’”. Até Roberto Carlos foi alvo de seus comentários, no início da carreira: “Ou prossigo evoluindo, ou terei vida curta... Não quero cair no esquema de Roberto Carlos.
Dito e feito, Guilherme prosseguiu evoluindo como intérprete e compositor. Grandes nomes da música popular brasileira gravaram suas canções como Maria Bethânia (com a inesquecível “Brincar de viver”), Caetano Veloso (com “Amanhã”), MPB4 (com a música “Labirinto"), Fábio Júnior (que gravou “Uma espécie de irmão”), Quarteto em Cy (com “Sol do meio dia”), Zizi Possi (com “Era pra durar”) e Elis Regina, que já cantou Guilherme, no duplo sentido da palavra, como ele mesmo nos conta:

Num jantar no Bar Lagoa, Rio, ela escreveu num guardanapo de papel que preferia estar ‘longe deste insensato mundo, com você’, e me passou por baixo da mesa. Fiquei em pânico, não sabia o que fazer. Meu casamento com Márcia estava meio balançado, terminou de balançar... Ela era muito carente, eu também, e a gente logo travou uma carinhosa amizade. Pude acompanhar sua depressiva frustração quando Herbie Hancock não cumpriu sua proposta de produzi-la nos EUA... Acho que esse era seu grande desafio - ser uma estrela internacional. Com o tempo acabei me afastando dela, só recebi um cartão no fim do ano de 1981, feito pelo Elifas Andreatto, pouco antes dela deixar este mundo ‘insensato’.

Em 1981, Guilherme lançou “Deixa Chover”, tema da Beth Faria em “Baila Comigo”. Na mesma sessão de estúdio gravou nosso hino ambiental, “Planeta Água”, música que entraria logo a seguir no festival MPB Shell de 1981. Para decepção da plateia, Guilherme conquistou apenas o segundo lugar em um dos festivais mais injustos da MPB. A vencedora foi Lucinha Lins, com a música "Purpurina"... Ao final do Festival Guilherme comentou com humildade: “Foi Deus que quis assim...” enquanto o público vaiava “Purpurina”, a canção vencedora:

Nem preciso contar o que aconteceu, com o segundo lugar consagrador que me pôs muito mais em evidência do que se houvesse ganhado o óbvio primeiro lugar.” – comenta.


Guilherme Arantes foi um dos pioneiros do som eletrônico. Sempre utilizou órgãos e sintetizadores, nunca deixando de lado o bom e velho piano Steinway, hoje avaliado em 90 mil dólares.
Seus 36 anos de carreira são traduzidos em incontáveis sucessos que vão do rock ao pop, passando pela MPB e new age. Pianista autodidata de talento, Guilherme é o único brasileiro a conquistar o certificado “Steinway”, uma espécie de prêmio de qualidade para os melhores pianistas do mundo. Mas ele não se aventurou apenas no mundo da música:

No Carnaval de 2000, decidi me mudar para a Bahia, junto com todos os meus sonhos, e aluguei uma casa simples, mas adorável em Vilas do Atlântico, município de Lauro de Freitas. Constituímos uma fundação, o Instituto Planeta Água de Pesquisas Educacionais e Ambientais, para gerenciar essa proposta social/ecológica, que não é brincadeira não. Estamos implantando um trabalho sério, onde o compromisso maior é com a enxada, com o homem simples e trabalhador, com as plantas e animais do Brasil, com a música e a poesia, com os valores de uma nova era. Pretendo trazer para cá os maiores nomes do Pop brasileiro e mundial e todos os fãs serão especialmente bem-vindos na pousada. A Escola do Instituto está sendo palco de um projeto de alfabetização de adultos, parceria com a Associação do Vale Dourado, com a SEMARH, Conselho Gestor das APAs do Capivara e Guarajuba, com SENAI, SEBRAE, SESI, Prefeitura de Camaçari. Também há uma turma de Artesanato, com senhoras da região, durante as tardes.

Recentemente, Guilherme adiantou as novidades para 2011. Vai lançar um site com produção própria, com cifras e partituras para violão, piano e orquestra e muito material exclusivo, totalmente novo e livre de mercado fonográfico (http://www.guilhermearantes.com/ e www.guilhermearantes.com.br). Também revelou que está produzindo um trabalho bem pop, com músicas “pra cima”, com temas alegres e que vai ser um “disco de verão”, como foi o de 1982.
Para finalizar, deixo a letra de uma das músicas mais “Alfarrábio” do Guilherme... Nostalgia pura! Essa música nos reporta à nossa infância... Às lembranças que “o vento traz antes da chuva chegar...”:


Antes da chuva chegar 
(Guilherme Arantes – 1976)


Sinto agora que o vento
traz coisas de longe de casa, libertando a voz
São lugares perdidos, imagens confusas de tempos que não voltam mais
E pessoas com quem convivi, suas palavras, seus sonhos,
seus atos, seus modos de ver a vida
Olhe o que o vento traz, antes da chuva chegar...
Olhe o que o vento traz, antes da chuva chegar...

Pela rua deserta e forrada
de folhas caídas que voam ao léu
Corre o meu pensamento
no rastro das nuvens pesadas que habitam o céu
Vejo a casa na qual me criei,
vejo a escola, o jardim,
vejo a cara de cada um dos meus companheiros.
Olhe o que o vento traz, antes da chuva chegar...
Olhe o que o vento traz, antes da chuva chegar...

Outros vídeos:

Na época do Moto Perpétuo, Guilherme canta “Duas”, uma balada roqueira, bem ao estilo Beatles, com aquela ingenuidade característica de outras músicas do álbum.


Uma das primeiras apresentações de Guilherme Arantes em carreira solo, no Globo de Ouro de 1976, com o sucesso “Meu mundo e nada mais”:


Cantando “Amanhã”, música que entrou para a trilha sonora da novela Dancing Days:


Na final do Festival MPB Shell de 1981, com apresentação de Christiane Torloni. Observem a indignação da plateia quando o resultado final é divulgado:


Cantando “Pedacinhos”, no Globo de Ouro de 1983, com apresentação de Miriam Rios e Denis Carvalho:


Aqui, Guilherme faz uma brincadeira em seu show para comentar o fato de que algumas pessoas não o reconhecem mais, nos dias de hoje. Show ocorrido no Citybank Hall/SP em 16/02/2008.


Por fim, minha homenagem a esse grande compositor e intérprete. São algumas fotos que retratam sua carreira ao longo dos anos... Escolhi uma música “Lado B” pra mostrar que ainda há muito a ser (re)descoberto quando o assunto é Guilherme Arantes.


Alfarrábio comenta: GRANDE (literalmente!) matéria sobre esse grande artista da nossa música pop! Realmente, não há como pensar no cenário musical oitentista brasileiro sem esbarrar na figura de Guilherme Arantes. Se você, como nós, teve a feliz oportunidade de vivenciar isso tudo, tenho certeza de que o texto da Grazi te fez viajar no tempo e recordar hits incríveis associando-os a diferentes momentos e experiências de vida. Agora, se você perdeu isso tudo porque nasceu um pouquinho mais tarde, eis a chance de conhecer um pouco do melhor da nossa música nos saudosos anos 80! Parabéns pelo trabalho, Gra! ;-)

4 comentários:

Grazi ella disse...

Dan!!
Obrigada por tudo, amei escrever a matéria!!! E amei ainda mais vê-la publicada aqui nesse blog maravilhoso!!!!
Ah!!! Criativo demais o Feliz Ares!!!!!! =)
E como não poderia deixar de comentar: Dan, vc viu que nossa querida cidade tb fez parte da vida do Guilherme? Cidade dos avós dele, onde costumava passar as férias... =)
É! Araraquara não é coisa pouca não... =)

MCI disse...

Tinha cer-te-za que você ia adorar o "Feliz Ares"! =) Prova de que nossa sintonia criativa resiste ao tempo com uma vitalidade de dar inveja, né, não?
Sim, eu fiquei bobo quando li sobre Araraquara na biografia que você compôs, Gra! Dá um orgulho danado de ver nossa terrinha tão bem representada! =)
Sua matéria ficou maravilhosa, Gra!
De coração, obrigado!
Aguardando outros textos inspirados seus!
Beijão!

Tom disse...

Puxa vida, AMO o trabalho do Guilherme Arantes, e me sinto mais que honrado em ver que divido com ele, além da filosofia de vida e de trabalho e ideais, também a data de aniversário!!!
Parabéns a ambos pelo ótimo post, gente!
Beijos!!!

TH disse...

Guilherme Arantes fazia algo que hj é inconcebível na música brasileira: trazer qualidade e bom senso nas letras e fazer sucesso com isso. Seus hits eram bem apurados radiofonicamente e traziam verdadeiras lições de vida, agradando o públco em massa, sem ofender intelecto algum.
O bom senso do rapaz sempre lhe creditou como um tio que dava conselhos certeiros, nas horas vagas. Adoro sua carreira...
Minhas preferidas: Cuide-se bem, na década de 70 (tema da novela "Duas Vidas") e Taça de Veneno, de 1992, tema de "Deus nos Acuda".
Parabens, Grazi! Grande dossiê, Alfarrábio!
:D

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